
Para mulheres desconfiadas
Ontem eu e ele saímos, estávamos de carro. Paramos em frente a uma padaria e ele desceu pra comprar pão. Ele tem o costume de deixar o celular dentro do carro, no painel, enquanto está dirigindo, para não ter que retirá-lo do bolso caso o mesmo toque durante a viagem.
Assim que saiu do carro para comprar o pão, ele pegou o celular do painel e levou com ele. Neste momento eu logo percebi que ele não queria deixar o celular aqui comigo. Possivelmente ele está escondendo o celular de mim. Penso que deve haver algo neste celular que eu não possa ver, tanto que ele teve de levá-lo daqui, só pra não deixar aqui, ao meu alcance.
Ele sabe que deixando o aparelho aqui eu poderia verificar o que havia dentro, ele sabe que eu faço isso. E sabendo disso, deve ter ficado com receio de sair sem ele. É um tanto óbvio. Tem algo ali. Alguma coisa que eu não posso saber.
Afinal, por que não deixar o celular aqui? Ele só vai ali comprar pão... É algo simples, rápido. Até parece que alguém irá ligar neste meio tempo. Mas o medo dele é tanto que nem isso consegue fazer. Quando estamos escondendo algo de alguém é comum não deixar rastros e fingir o tempo inteiro.
Sim, pode ser uma coisa banal. Pode sim! Mas é estranho... Muito estranho. Qual o problema de deixar o aparelho aqui? Que falta de tranqüilidade é essa? O que é que tem ali que não pode esperar? Será que eu não poderia atender o celular caso alguém ligasse enquanto ele estava na padaria? É simples, eu só diria que ele não pode atender agora. Mas não, tem de levar o aparelho com ele, tem de deixar longe do meu alcance. É estranho, muito estranho. Nem tudo é tão simples quanto parece... Ele só pegou o celular, eu sei! Mas não é tão simples assim... Neste movimento comum podem ter várias outras coisas envolvidas. Não sou assim tão fácil de enganar. Ele pensa que eu não sei, mas eu estou reparando em tudo...
Eric Campos Alvarenga
Um comentário:
Neste momento
no qual a insônia
está a me dominar
penso que não somente as mulheres
podem desconfiar
aprendemos desde cedo
a nunca nos entregar
a palavras vãs e fáceis
de apenas se proclamar.
Só cai no conto
quem espera um ponto
e um dia voltando
de alguma farra
poder contar
que já foi santo
e agora no desencanto
se põe a enganar.
O que não se espera
é que a antiga mazela
deixa também os outros a pensar
não somente quem é enganado
é aquele que sai baleado
mas é aquele ser que sai refestelado
e forjado pelo ódio
se põe a maquinar
o que fez e o que deixou passar.
Muito bom, mano!
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